Política Industrial

Abaixo reproduzo  um comentário que fiz  à nota postada pelo Dr. Gilberto Camera, Diretor do INPE, no blogue Observatório da Universidade em 13/03/09.

Prezado Gilberto,

Primeiro, parabéns pela transparência. Gostaria de tecer alguns comentários sobre sua nota.

Criar software é distinto de produzir software, tendo em vista que a produção no sentido estrito é apenas o processo de cópia e empacotamento, se for o caso.

Criar software requer conhecimento em três grandes áreas: conhecimento da engenharia de software, conhecimento da máquina computacional e conhecimento do contexto. A engenharia de software fornece métodos, técnicas e ferramentas para auxiliar na integração desses conhecimentos.

Portanto a capacidade de criar software é extremamente dependente da demanda, ou seja, do contexto e da máquina computacional. Ocorre, que, em alguns casos, como na área aeroespacial, que você aponta, deixou de haver uma integração entre os especialistas no contexto (aeronáutica) e da máquina computacional (hardware) com aqueles capacitados a criar software. Veja que, em outras áreas, como automação industrial, automação bancária, e automação comercial existem vários casos de sucesso com software nacional.

O que você reporta é fruto da falta de investimento anterior. Os setores que mencionei acima requerem menos capital para que sejam criados, como também têm um mercado de produção (cópias) bem maior. O que faltou ao longo de alguns anos é uma política de software que pudesse contemplar esses nichos especiais, em particular no setor aeroespacial. Veja o caso do projeto Radam. O software foi desenvolvido nos Estados Unidos, sendo que alguns dos desenvolvedores tinham se formado aqui no Brasil!

Portanto a questão é política. Creio que, como eu já tinha apontado em 1991, a política de software concentrada na exportação foi equivocada. A intenção era a melhor possível, mas faltou uma visão macro. Você só exporta quando é competitivo e para ser competitivo é preciso saber fazer: ou seja, adquirir experiência na integração das três áreas apontadas acima. O resultado é que vimos ao longo desses 17 anos o crescimento substancial de nosso debito em conta corrente no que tange a serviços, ou seja, aumentamos em muito a importação de software e os avanços na exportação, que são louváveis, ficaram bem abaixo do esperado.

No entanto, para tecer mais comentários sobre essa questão, seria necessário um estudo cuidadoso das contas nacionais e do levantamento de áreas prioritárias para que se evite, no futuro, situações como essa que você reportou.

Veja que o que estou falando acima é sobre política industrial, na qual a universidade é parte, mas não o centro. O ponto central é que precisamos unir os três tipos de conhecimento acima. Isso é difícil, porque, por exemplo, muitas vezes o fornecedor do hardware é opaco sobre informações importantes para a construção de software, só abrindo para empresas coligadas. No fundo, precisamos de mais investimento e esse investimento tem quer ser fomentado pelo estado, principalmente em áreas críticas e de grande especialização. Veja que, o avanço alcançado nos Estados Unidos na área de computação/informática é função do montante que o estado investiu e investe nessa área (em recente entrevista a revista Isto É, o Professor Noam Chomsky aponta essa característica estatizante na indústria de computação nos Estados Unidos (“Os Estados Unidos, o país mais rico do mundo, sempre foram altamente protecionistas. Sua economia avançada depende crucialmente do setor estatal. Se você pensa em computadores, internet, tecnologia da informação, laser, tudo isso foi financiado pelo Estado. Você não pode falar em livre mercado porque eles não acreditam nisso.” Entrevista à Revista Isto É, ediçâo de 27/02/09).

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